A Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA) é, atualmente, a perturbação psiquiátrica mais diagnosticada em crianças e adolescentes. Compreender as suas raízes e manifestações, bem como o seu potencial impacto evolutivo, é crucial.
As Bases Neurobiológicas da PHDA
A PHDA está fortemente ligada à genética, com a maioria dos genes associados a influenciar as vias de recompensa do cérebro. Indivíduos com PHDA apresentam níveis mais baixos de recetores de dopamina, a hormona do bem-estar. Isso torna-os menos sensíveis a recompensas, levando a sensações de tédio ou falta de estimulação face a atividades que para outros seriam envolventes.
Ao nível cerebral, observamos diferenças na atividade. Enquanto num cérebro típico a rede de modo padrão (associada ao repouso) desativa-se rapidamente para dar lugar à rede de tarefa positiva (focada), nos cérebros com PHDA, a rede de modo padrão permanece ativa. Esta sobreposição resulta numa menor capacidade de concentração. Adicionalmente, cientistas identificaram um córtex pré-frontal mais fino em pacientes com PHDA, uma área crítica para o controlo da atenção, regulação emocional e inibição de impulsos.
Tratamento e Diagnóstico: Controvérsias e Preocupações
A Ritalina é frequentemente prescrita para a PHDA, atuando ao aumentar a concentração de dopamina na sinapse, melhorando a probabilidade de ligação aos recetores existentes. Contudo, há investigação contraditória sobre a sua eficácia geral e preocupações quanto a efeitos secundários a longo prazo. É importante notar o abuso da Ritalina por indivíduos sem PHDA, como forma de potenciar a concentração para estudo ou trabalho.
O número de diagnósticos de PHDA tem aumentado drasticamente. Nos EUA, registou-se um aumento de 5% anualmente entre 2003 e 2011, e um aumento de 35% nas prescrições de medicamentos entre 2008 e 2012. Este aumento levanta questões sobre se será totalmente justificado ou se reflete outros fatores.
A PHDA como Vantagem Evolutiva?
Surpreendentemente, pode haver uma vantagem evolutiva associada aos sintomas clássicos da PHDA. Em culturas de caçadores-coletores e tribos nómadas, características como a inquietação e a hiperatividade podiam traduzir-se em maior sucesso na caça e recolha, e em maior vigilância para proteger a descendência. Isto implicava maiores probabilidades de sobrevivência e de transmissão dos seus genes. Um estudo com a tribo Ariaal no Quénia demonstrou que os nómadas com maior frequência de genes ligados à PHDA eram mais eficazes na obtenção de alimentos.
Criatividade e Sucesso Profissional
Estudos mostram consistentemente que indivíduos com PHDA tendem a ser mais criativos, tanto em testes controlados como na vida real. A sua forma de pensar, muitas vezes aleatória e fora da caixa, contribui para esta aptidão. Embora ambientes escolares estruturados possam ser desafiantes, muitos adultos com PHDA prosperam no contexto profissional adequado. Quando a sua alta energia é canalizada para carreiras que exigem engenhosidade e adaptabilidade, o que antes poderia ser visto como desvantagem pode transformar-se num forte trunfo.
Em síntese
A PHDA, embora apresente desafios neurobiológicos e de concentração, pode ter raízes evolutivas e manifestar-se como uma vantagem em termos de criatividade e adaptabilidade, especialmente em ambientes que valorizam estas características.




