O Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) cansa, e cansa muito. Esta fadiga, além de ser intensa, é extremamente comum entre quem vive com a perturbação. Se também se identifica com esta sensação, vamos detalhar as causas principais deste esgotamento e apresentar estratégias para o combater.
Enquanto médico psiquiatra especializado em PHDA no adulto, observo no meu consultório que a fadiga é uma queixa frequente, o que se alinha com estudos que indicam que 62% das pessoas com PHDA reportam níveis elevados de cansaço. Este fenómeno é complexo, resultado da interação de vários fatores que afetam negativamente o trabalho e a qualidade de vida. Vamos, então, analisar as causas e o que a ciência nos diz.
1. Baixos Níveis de Dopamina e Noradrenalina
Uma das principais causas do cansaço em pessoas com PHDA são os baixos níveis de dopamina e noradrenalina em áreas cruciais do cérebro, especialmente o córtex pré-frontal. Esta região é vital para a atenção, o planeamento e o controlo dos impulsos. Estes neurotransmissores também regulam os níveis de energia e o estado de alerta. Consequentemente, a sua deficiência leva a sentimentos de cansaço, sonolência e baixa disposição.
2. Sono de Baixa Qualidade
Imagine viver com a sensação de exaustão de uma noite mal dormida, todos os dias. Esta é a realidade para muitas pessoas com PHDA. O impacto da perturbação na qualidade do sono é uma causa frequente de fadiga. Não se trata apenas de dormir pouco, mas da qualidade do sono em si. Dificuldade em iniciar o sono, sono entrecortado e despertares precoces são comuns. Um estudo de 2021 na Sleep Medicine Review revelou que até 50% das pessoas com PHDA sofrem de alguma perturbação do sono. Lidar com os desafios do PHDA e com a privação de sono acarreta cansaço adicional, dificuldades de concentração e de regulação emocional. A qualidade e duração do sono são cruciais e não devem ser negligenciadas.
3. Sobrecarga Cognitiva
Concentrar, organizar e gerir tarefas complexas pode ser como carregar uma mochila cheia de pedras o dia todo. O cérebro de quem tem PHDA raramente desliga, mantendo-se ativo com ideias, preocupações e tarefas inacabadas – uma "mente barulhenta" que nunca descansa. Este fluxo contínuo de pensamentos gera um cansaço mental persistente, como se o cérebro estivesse sempre ligado. Manter o foco numa tarefa simples requer um esforço desproporcional, esgotando a energia mental mais rapidamente. O "caos organizado" do PHDA, com lembranças esquecidas e compromissos atrasados, contribui para uma pressão constante. A corrida para cumprir prazos após procrastinar cria um ciclo de stress que drena a energia e perpetua a exaustão.
4. Desregulação Emocional
Lidar com emoções intensas e por vezes desproporcionais ao contexto é exaustivo. Irritabilidade, euforia e oscilações de humor levam a um estado de exaustão emocional. Esta instabilidade afeta não só o indivíduo, mas também as suas relações, gerando isolamento e incompreensão. A carga emocional de sentimentos intensos e frequentes drena os recursos mentais, culminando num sentimento de completo esgotamento.
5. Comorbilidades Psiquiátricas e Clínicas
A presença de outras condições de saúde, muito comuns em quem tem PHDA, agrava o cansaço.
Comorbilidades Psiquiátricas
Ansiedade e depressão são frequentes. A ansiedade mantém a mente em estado de alerta, dificultando o relaxamento e até o sono. A depressão é frequentemente acompanhada de cansaço e falta de energia.
Comorbilidades Físicas
Condições como apneia do sono, enxaqueca e distúrbios metabólicos (obesidade, diabetes) são mais comuns em pessoas com PHDA e contribuem significativamente para o cansaço. Por exemplo, a apneia do sono fragmenta o sono, tornando-o superficial e de má qualidade.
6. Hábitos e Estilo de Vida
Os hábitos têm um impacto direto nos níveis de energia. Alimentação irregular, falta de atividade física e stress elevado intensificam o cansaço. Para quem tem PHDA, a dificuldade em planear e fazer boas escolhas alimentares, ou saltar refeições, pode levar à falta de nutrientes essenciais. O sedentarismo agrava a fadiga, enquanto o exercício físico é crucial para melhorar o condicionamento, a qualidade do sono e a regulação do humor.
Em Síntese
Se se identificou com algum destes fatores, saiba que não precisa de os enfrentar sozinho. A ajuda profissional é essencial para melhorar a qualidade de vida. O tratamento do PHDA, que pode incluir medicação para normalizar os níveis de dopamina e noradrenalina, psicoterapia para desenvolver estratégias de coping, e a identificação de comorbilidades é fundamental. Exames podem investigar causas de fadiga não relacionadas com o PHDA, como deficiências vitamínicas ou disfunções tiroideias.
A construção de hábitos saudáveis (alimentação equilibrada, exercício físico, qualidade do sono, gestão do stress), com o apoio de um profissional de saúde, é crucial. Juntamente com a medicação (quando necessária) e a psicoterapia, estes hábitos têm um impacto significativo na redução do cansaço e na melhoria da qualidade de vida. Procurar ajuda é um ato de autocuidado, que permite criar condições para viver de forma mais equilibrada, com mais bem-estar e energia para aproveitar a vida ao máximo. Não está sozinho(a) nesta jornada.




