A falta de foco e a desmotivação são problemas cada vez mais comuns na sociedade atual. Um cenário que se agrava para quem vive com TDAH. Mas será que a culpa é só das redes sociais e do prazer imediato que elas proporcionam? O que há de tão diferente na vida moderna que nos afasta da concentração e do propósito?
Para além do ecrã: a cultura moderna e a saúde mental
É fácil culpar o telemóvel e o turbilhão de dopamina das redes sociais pela nossa falta de foco. De facto, a constante busca por gratificação instantânea habitua o cérebro a um ritmo acelerado, corroendo a capacidade de manter a atenção. No entanto, esta é apenas a ponta do iceberg. A cultura moderna, com a sua promoção incessante de dopamina fácil, intoxica-nos. Ansiedade, má alimentação e outros vícios são sintomas de um mundo doente. Estima-se que 70% dos jovens no Sudeste já relatam alguma crise mental antes mesmo de ingressarem na faculdade. Antes de nos culparmos pela falta de foco, é crucial investigar a raiz desse dilema.
Motivação e foco: o elo intrínseco
Friedrich Nietzsche, há 150 anos, já previu que os avanços da modernidade arrasariam a mente. A sua filosofia inspira-nos a procurar um "porquê" que nos impulsione. "Aquele que tem um porquê supera qualquer como." Ter um motivo autêntico é fundamental para o foco e a motivação. Querer escrever, por exemplo, é um bom começo, mas, muitas vezes, uma parte de nós não quer, tem medo ou prefere fazer outra coisa. Os motivos autênticos são aqueles que convencem todo o nosso ser, levando-nos a um estado de hiperfoco onde todas as partes da mente se alinham para um objetivo comum. Quando o objetivo é significativo e genuíno, a procrastinação e a falta de ânimo dão lugar à ação, mesmo nas tarefas mais desafiadoras.
O aquário podre: Mihaly Csikszentmihalyi e a motivação intrínseca
Nos anos 90, o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi questionou o aumento de diagnósticos de TDAH, burnout e depressão. Ele propôs uma nova teoria da motivação, analisando o contexto pós-moderno. Se os peixes de um aquário adoecem, não basta tratar os peixes, é preciso investigar o ambiente. A falta de foco e a apatia são muitas vezes uma reação natural do organismo a uma cultura insalubre, o nosso "aquário podre".
Para Csikszentmihalyi, a mente humana é movida por motivações intrínsecas (ação por querer, por um sentido de eu) e extrínsecas (ação por recompensas e punições). Quem age por interesse intrínseco envolve-se mais com a tarefa e repete-a com mais satisfação. A vida moderna, com o seu foco no utilitarismo e no lucro, tem-nos transformado em máquinas de motivação extrínseca. Somos condicionados a buscar significado fora de nós, perdendo a ligação com a nossa motivação intrínseca. A nossa "fada" da motivação fica zangada e entra em greve, levando-nos à fadiga, à sensação de desconexão e à perda de sentido.
O que faz sentido para ti?
Esta é a questão de ouro, a qual remete à filosofia de Nietzsche e à própria noção de sentido da vida. A educação, o trabalho, as metas, muitas vezes são vistos como meios para um fim (dinheiro, status, sucesso), e não como fins em si mesmos. Quando essa expectativa se quebra, quando o futuro idealizado não se concretiza, surge uma rutura existencial. Uma parte de nós "revolta-se" e questiona: "porquê estamos a fazer isto?" Essa desconexão é a raiz da falta de foco, que não é preguiça nem incompetência, mas um chamado para reavaliar os nossos motivos. Ignorar essa questão é um erro grave.
Em síntese
Navegar pela vida com TDAH, num mundo que nos afasta do nosso propósito, é um desafio constante. No entanto, existe um "norte" a ser definido: a busca pelo que realmente faz sentido para nós. O autoconhecimento, a capacidade de mergulhar em si mesmo, de reconhecer e abraçar as nossas paixões, medos e desejos mais profundos, é o que nos permite reacender a motivação intrínseca. Não é um destino, mas uma jornada, uma constante reinvenção. Mesmo no meio da tempestade, há sempre uma chance de recomeçar e nos orgulharmos de quem somos. Que tal começares hoje mesmo a descobrir o que realmente faz sentido para ti e a abraçar a tua "criança corajosa" interior?




