A História Não Contada do Pacífico | Episódio 1: Os Dawn Raids | RNZ
Descrição
https://www.rnz.co.nz/untoldpacific Untold Pacific History é um relato dinâmico, frequentemente provocador, mas acessível, da relação da Nova Zelândia com o Pacífico e do vasto impacto que esta teve na própria história da Nova Zelândia e na relação com os povos do Pacífico na Aotearoa atual. De entre os muitos eventos que afetaram a população das Ilhas do Pacífico (Pasifika) em Aotearoa, a história das "as rusgas ao amanhecer" (dawn raids) tarda em ser contada. Longamente sussurradas em conversas familiares secretas, as pessoas ouviram o termo "dawn raids", mas desconhecem o que realmente aconteceu. Neste exame crítico de um período pouco conhecido da história da Nova Zelândia, esta obra apresenta figuras-chave envolvidas no infame regime de rusgas do governo neozelandês: desde um polícia samoano na linha da frente das operações, até histórias pessoais de famílias impactadas naquela época. Este episódio explora o panorama de Aotearoa na década de 1970 e os fatores políticos globais que levaram ao declínio económico, o qual inverteu o sentimento público contra os imigrantes ilegais. Viabilizado pelo Fundo de Inovação RNZ/NZ On Air.
Transcrição completa
A Nova Zelândia do pós-guerra era considerada a terra prometida. Os insulares do Pacífico foram incentivados a vir para a Nova Zelândia para ajudar a suprir a falta de mão de obra.
Na altura, queriam muita mão de obra das ilhas, porque muitas pessoas daqui não queriam esses trabalhos, sobretudo nas fábricas. O meu pai veio no início dos anos 70,
e depois trouxe-nos das ilhas para termos uma educação e um estilo de vida melhores, e mais oportunidades para as crianças aqui.
A educação era mesmo muito importante para eles. Não tanto para conseguir um bom trabalho no fim, mas para te tornares uma boa samoana e cumprires os teus papéis e obrigações como filha ou filho para com os pais e a família.
Mas para alguns insulares do Pacífico, a terra prometida estava prestes a azedar, e o sonho de uma vida melhor tornar-se-ia um pesadelo.
Tínhamos todos estes esconderijos no apartamento onde vivíamos, tínhamos planos de fuga...
O telefone tocava três vezes e parava. Isso significava que a imigração estava a caminho.
Acho que muitos me consideravam um traidor. Que não pertencia ao grupo deles, que era um samoano 'branco'.
Muitos insulares do Pacífico viviam no centro da cidade, a trabalhar em fábricas e a procurar uma educação melhor. Mas estas comunidades enfrentavam problemas que os imigrantes europeus não tinham de enfrentar.
Uma vez, eu era mãe de três filhos, trabalhava a tempo inteiro, andava na universidade a terminar o mestrado, olhei por acaso para um carro que passava e um 'skinhead' pôs a cabeça de fora e disse: 'Para o que estás a olhar, sua cabra preta?'
Um rapaz, um bom amigo que era lutador samoano, estava a subir para o The Gluepot.
O The Gluepot era um pub em Ponsonby Road, perto da esquadra de polícia onde eu trabalhava.
Ao subir as escadas para a parte de cima do bar, ele tropeçou e quase escorregou, e depois praguejou com a palavra 'F'. Havia um polícia dois degraus abaixo que o agarrou e prendeu por praguejar num local público.
Pequenas infrações como essa faziam com que fosses preso e ficasses com registo criminal, o que achei bastante estúpido.
No início dos anos 70, houve uma crise económica e, com o aumento do desemprego, os insulares do Pacífico deixaram de ser desejados. Políticas de imigração antes ignoradas começaram a ser aplicadas.
Politicamente, era o desejo de Rob Muldoon voltar ao parlamento, e ele usou os insulares do Pacífico, dizendo que tínhamos visto caducado e com todo aquele estereótipo de que éramos maus.
Éramos nós que roubávamos os empregos das pessoas, etc. Esse tipo de atitude, espalhando-a através dos meios de comunicação e tendo sucesso.
E temos de controlar a nossa imigração. Não podemos permitir que uma inundação venha para cá e afunde a nossa economia.
Nas eleições de 75, obtiveram a maior maioria de sempre. Ainda é um recorde. E ele usou o racismo, atitudes racistas e o alarmismo.
Quando o Partido Nacional chegou ao poder, houve uma repressão da imigração e quem tinha o visto caducado vivia com medo da deportação.
Eu era apenas uma criança pequena quando viemos, tinha uns três para quatro anos. Lembro-me de ir de lugar para lugar, mas sem saber bem por que tínhamos de continuar a mudar-nos.
E o meu nome na escola não era o verdadeiro. Tinha de usar um nome falso, Peter. Tinha o nome de Peter Taulaki. O meu pai disse-me que esse era o meu nome, portanto...
Lembro-me de uma senhora 'Palagi' idosa, a Sra. Cooper, e ela dizia sempre: 'Adeus, Peter!'. E eu pensava: 'Ah sim, é verdade, sou eu!'. Então acenava e passava por ela.
A polícia e os agentes de imigração realizavam rusgas ao alvorecer para apanhar imigrantes ilegais.
Tínhamos sinais que eu não conhecia, mas os meus pais já tínhamos combinado, porque também tínhamos tios a morar connosco. E eles tinham todos o visto caducado.
A minha mãe inventava uma história: 'Temos de ir porque o pai tem coisas para fazer'. Entrávamos no carro e saíamos. Em momentos percebia-se que estava tudo pronto para partir.
Tudo a postos. Tínhamos esconderijos no apartamento onde vivíamos. Tínhamos planos de fuga, tudo delineado. Eles já sabiam o que fazer.
Houve uma noite em que foi dado o sinal e fomo-nos todos embora no nosso Cortina, porque ouvimos dizer que o apartamento mais acima na rua estava a ser alvo de uma rusga. Entrámos no Ford Cortina e fomos até Kaikohe.
Para mim, como polícia samoano na altura, não me sentia nada confortável. No fundo do coração, amavas o teu povo. Acho que muitos me consideravam um traidor, e que eu não pertencia ao grupo deles, que era um samoano 'branco'.
Os insulares do Pacífico representavam um terço de todos os que tinham visto caducado, mas mais de dois terços dos processados eram insulares do Pacífico.
Os governos costumavam fechar os olhos a quem tinha o visto caducado, por isso permitiam que tantos britânicos ficassem. O que nunca entendi foi por que perseguiram os insulares do Pacífico e não os outros.
Isso aponta para uma questão óbvia de raça, na minha opinião, e essa é a parte triste das rusgas ao alvorecer: foi discriminação racial.
Durante os anos 70, houve uma onda de jovens que começou a erguer-se para desafiar a autoridade, incluindo um grupo de insulares do Pacífico conhecidos como 'Polynesian Panthers'.
Era um tempo de revolução. Que se lixe a autoridade, o conservadorismo, a Guerra do Vietname. Esse era o ambiente em que estávamos a crescer.
Muitos de nós eramos ex-membros de gangs, e acho que a filosofia dos Panthers era a não-violência.
E foi quase uma revelação de que os problemas que enfrentamos e os desafios que temos não vão ser resolvidos a soco.
A coisa mais difícil em ser samoano e cristão é manter as mãos nos bolsos quando alguém te chama 'coco'.
Os Polynesian Panthers não só tinham de lutar contra o racismo, mas também contra a perceção de que eram apenas um gang.
Até disseram que odiávamos os brancos. Tivemos de lidar com esse estigma também, não só da parte dos europeus, dos brancos, mas do nosso próprio povo.
'Por que fazem isto aos Palagi? Por que vão lutar contra a polícia?'. E nós tínhamos de lhes explicar que tínhamos de mudar, e que o que eles estavam a fazer não era correto.
Uma das estratégias que desenvolvemos foi fazer rusgas ao alvorecer às casas dos políticos enquanto eles dormiam, às 3 da manhã.
Não tínhamos carros na altura, tínhamos apenas 16, 17, 18 anos, tesos e tal, mas eram os nossos apoiantes e amigos que tinham os veículos.
Usávamos megafones e projetores. 'Saia já com o seu passaporte, Bill Birch, e prove-nos que...' Fizemos isso.
E assim que as luzes se acendiam, saltávamos para os carros e fugíamos. Mas queríamos que eles soubessem o que se sentia ao sofrer uma rusga ao alvorecer.
As rusgas ao alvorecer continuaram, mas depois o governo introduziu uma nova política que se tornaria ainda mais controversa.
Uma noite estávamos de serviço, das 19h às 03h da manhã, e fomos chamados à central.
Eles tinham uma mensagem da central, era como um fax da sede de Wellington,
a dizer para formar um esquadrão, ir aos locais onde os polinésios, as pessoas de pele escura, se congregavam, interrogá-los e pedir identificação para comprovar o direito de permanecer na Nova Zelândia.
Estacionávamos a carrinha e interrogávamos as pessoas sobre a sua identidade e estatuto na Nova Zelândia. Foi bastante mau.
Não importava quem eras, se eras samoano, tonganês, das Ilhas Cook, bastava seres de pele escura, e sabias que corrias o risco de ser parado. Antes de sairmos de casa, já éramos suspeitos.
E até os Maori eram abordados porque se pareciam connosco, alguns deles. Por isso, achei aquilo terrível e um perfilamento puramente racial. Aposto que não pediam o passaporte a ninguém do Reino Unido nas ruas.
O protesto público contra as rusgas ao alvorecer e as paragens aleatórias tornou-se tão forte que o governo foi forçado a alterar as suas políticas de imigração.
Houve uma amnistia. Foi assim que obtivemos a nossa residência permanente, ironicamente, através do Muldoon.
Apesar de o Muldoon ter sido o pior responsável pelas rusgas ao alvorecer, como o meu pai obteve os papéis durante o seu mandato, ele votava sempre no Partido Nacional. Nunca consegui entender.
Mas era a lealdade dele, porque dizia: 'Obtive os meus papéis graças a ele'. E eu dizia: 'Sim, mas ele é um estúpido, blá blá blá'. Ele respondia: 'Não, vou votar nele'. Portanto, era leal. E esse é o tipo de lealdade que muitos insulares do Pacífico têm.
A maioria das pessoas pensa: 'As rusgas foram nos anos 70 e nos anos 80 correu tudo bem'. Mas essa na verdade não é a imagem real da situação.
O que estava a acontecer nos anos 80 era que a imigração por vezes ia às escolas para perseguir as pessoas.
Quando comecei a trabalhar lá, havia uma grande população tonganesa graças a um professor fantástico que trazia rapazes de Tonga para tirarem o diploma do ensino secundário durante um ano. E como eu lecionava carpintaria, a maioria vinha parar às minhas aulas.
A imigração chegava e dizia: 'Estamos à procura desta pessoa'. Mas felizmente tínhamos duas mulheres tonganesas na secretaria, e elas diziam: 'Ah, eles estão na aula de carpintaria'.
E depois o telefone tocava três vezes e parava. Isso significava que a imigração estava a caminho. Quando dava esses três toques, davas um grito e desligavas o interruptor na parede para parar todas as máquinas.
Assim, todos sabiam que, quando as máquinas paravam, algo estava a acontecer. E algumas pessoas desapareceriam debaixo das bancadas.
Agora parece absurdo, mas na altura era algo normal. A escola Seddon tinha sido construída sobre um aterro e o aterro estava a ceder, a afundar-se, e abriam-se grandes lacunas debaixo das salas de aula.
Descobrimos que esse era um lugar onde se podia ir em segurança e esconder se fosse preciso. Não era algo vistoso, era simplesmente a forma como vivias num mundo difícil.
Depois de escrever o livro 'Dawn Raid', queria que no lançamento mais pessoas soubessem sobre o assunto. Escrevi-o para crianças, mas queria que mais adultos também tivessem conhecimento.
Criámos uma exposição onde se entra quase numa página do livro, numa sala dos anos 70 de uma família do Pacífico com fotos na parede e contas decorativas, levando-nos desse ambiente acolhedor para a realidade daquela época.
Eu e os Panthers passámos bastante tempo a viajar para falar com alunos do ensino básico e secundário, e eles têm sede de conhecimento sobre a história da Nova Zelândia. Quando os Panthers dizem: 'Tinha a vossa idade e protestava nas ruas,'
'e a polícia me batia e estas coisas aconteciam', este é o momento certo para criarmos muito material de qualidade para apoiar o ensino da história da Nova Zelândia nas escolas.
Há muitas lições que se podem tirar das rusgas ao alvorecer, e o espírito dos Polynesian Panthers continua vivo numa nova geração de insulares do Pacífico.
Sinto que a nossa geração do Pacífico está muito empenhada na justiça social, em implementar mudanças, mudanças para melhor, e erradicar o racismo em Aotearoa.
É muito importante para a comunidade 'Pasifika' desta geração curar o trauma que afetou as gerações mais velhas, para que nunca volte a acontecer.
Para algumas pessoas, isto não é uma lição de história. É um pedaço de vida, por vezes recordado como um lampejo na infância, por vezes na adolescência, por vezes como um pai a tentar proteger outros, ou um líder comunitário a tentar manter as pessoas seguras numa reunião da igreja.
E acho que essa é a forma interessante de ver as rusgas ao alvorecer. Não foram um evento histórico fechado numa caixa. Foram a manifestação de algo que surgiu, fervilhou e transbordou ao longo de gerações.
Eu chamo-me a mim próprio um filho das rusgas ao alvorecer, porque no fim de contas, aconteceu. Não queremos voltar a esses tempos, e há lições importantes a aprender com a nossa história.
Os neozelandeses não devem ter vergonha disso, porque é história, foi o que aconteceu, mas devemos aprender com isso. O mesmo se aplica a quem passou por isso. Nós, os povos do Pacífico, não devemos ter vergonha, porque foi algo por que passámos.
Foi um meio para atingir um fim. Claro que violaram a lei ao ficar cá ilegalmente, mas na minha opinião não cometeram um crime, não mataram nem roubaram nada. Na verdade vieram e contribuíram. Na minha perspetiva foi um crime inverso, mas pronto, eu só...