editorial claro

Felicidade é aqui e agora | Clóvis de Barros Filho | TEDxSãoPaulo

Descrição

O professor Clóvis fala sobre a felicidade e a necessidade de viver e ser feliz no momento presente. Professor, Doutor e livre-docente pela ECA-USP. Atua no mundo corporativo desde 2005 através do Espaço Ética. Esta palestra foi dada num evento TEDx, que usa o formato das conferências TED mas é organizado de forma independente por uma comunidade local. Saiba mais em https://www.ted.com/tedx

Transcrição completa

Haverá quem diga que a felicidade é teres o que queres.

Eis a primeira dificuldade: não é possível. Porque quando queres é porque ainda não tens, e quando tens, já não queres mais.

O desejo é sempre por aquilo que falta, por aquilo que nos faz falta, e a energia mobilizada para ir atrás daquilo que queremos encontra sempre na falta a sua grande motivação.

Mas depois, claro, um dia, como nem tudo é tão cruel e tão difícil, consegues o que tanto querias, e quando consegues, já não desejas mais, já não amas mais.

Os brinquedos recebidos no Natal estão num baú de desejos assassinados pela presença, mortos pelo consumo, e as crianças querem os outros que ainda não têm.

A sociedade não nos pode deixar desejar de qualquer maneira. Esta força que temos para ir atrás daquilo que nos faz falta não se pode manifestar no caos.

É preciso, cada sociedade sabe-o, organizar o desejo, direcionar a energia para aquilo que não vai causar problemas, para troféus legítimos, para conquistas que são ordenadoras da vida em sociedade.

Na escola, aprendemos a desejar aquilo que faz falta.

Lembro-me, na primária, eram os quatro primeiros anos do ensino básico, a professora Maria das Graças dizia assim: 'A primária é a preparação para o ginásio'.

E então ficámos quatro anos à espera do ginásio. O ginásio seria giraço, ela prometeu. No ginásio seria mais fixe, no ginásio teríamos mais liberdade.

E quando chegou o ginásio, tínhamos todos os motivos para acreditar que tudo seria lindo, haveria gozo, prazer, haveria felicidade. Mas a coordenadora mudou, entrou a professora Maria das Graças e disse: 'Olha...'

'...os quatro anos do ginásio são para preparar para o secundário.' No secundário sim, é outro edifício, é bem mais fixe, não é preciso usar farda, podes escolher entre exatas, humanidades e biológicas, já vais ser adulto, vais ser livre e, portanto, vais ser feliz.

Eram só mais quatro anos à espera, e chegou o secundário. Nos primeiros dias fomos para a escola a acreditar que a felicidade tinha chegado, ia ser espetacular, a vida ia ser linda, haveria prazer, gozo e felicidade...

...mas depois puseram um coordenador enorme, um gajo gigante chamado Mário Zãn, que disse: 'No secundário, deixemo-nos de tretas, é para preparar para os exames de acesso à universidade'.

Ficámos mais três anos, já são 11, a desejar. E toda a gente a dizer-nos: 'Quando acontecer isto, quando acontecer aquilo, quando fores para lá, haverá felicidade'.

Chegámos à faculdade. Os primeiros dias pareciam cumprir a promessa. Pá, havia a semana do caloiro, as festas dos caloiros, havia bebida, havia muito sexo, era muito fixe, havia felicidade...

...mas passado três dias começámos a passear pelos corredores, estágio aqui, estágio ali, estágio acolá, e os veteranos a dizer: 'Pá, se não arranjares um estágio, estás tramado. Se não arranjares estágio não vai dar certo, nunca mais apanhas o comboio da história...'

'...o trabalho vai escapar, vais morrer na sarjeta, nunca mais vais trabalhar.' E vais atrás do estágio com unhas e dentes até que consegues um estágio.

Voltas para casa eufórico, a felicidade chegou: 'Tenho um estágio!' E no primeiro dia do estágio tratam-te por estagiário, e aí ves que não é assim tão fixe o que te disseram.

Na verdade, há até uma anedota de estagiários: um superpresidente de uma empresa reúne os seus vice-presidentes e faz uma adivinha, um enigma. Ele diz: 'Ouçam lá, o que eu faço aqui é prazer ou é trabalho? Têm 24 horas para responder'.

Os VPs reúnem os seus diretores, reúnem os seus encarregados, reúnem os seus capangas: 'Ouçam, o que o chefe faz aqui é prazer ou é trabalho?' E aquilo vai descendo pela empresa toda, toda a hierarquia da empresa...

...até que no fim do corredor está um estagiário. Tem pilhas de trabalho, dois telefones ao ouvido, um monte de coisas para fazer. Alguém chega ao pé dele e diz: 'Ei, tu, tenho de responder...'

'...o que o presidente faz aqui é prazer ou é trabalho?' E ele diz: 'É lógico que é prazer! Se fosse trabalho era eu que o fazia, com certeza!'

Aí consegues o estágio e alguém te diz logo: 'Se não fores efetivado, o estágio não terá valido de nada.' E como és impecável, muito aguerrido, chega um dia em que tens o contrato assinado, tens o diploma da universidade, chegas a casa e dizes...

'Foram 16 anos a preparar-me.' És o orador da turma na bênção das fitas e dizes: 'São 16 anos aqui, mas a felicidade finalmente chegou! Tenho um emprego e tenho, pasme-se, um diploma universitário.'

No primeiro dia de trabalho és recebido por um chefe. O chefe olha para ti e diz: 'A empresa tem 15 níveis. Estás no G15.'

'O G15 vale menos do que um estagiário. Nem sequer tens lugar para pôr a bicicleta no parque de estacionamento. Tu não vales nada.'

E tu dizes: 'E para subir, como é que faço?' Ele responde: 'Tens de perseguir metas, atingir metas e apresentar resultados.' Tu olhas e dizes: 'E o que é exatamente uma meta?' Ele diz: 'É assim, são como cenouras que vão rápido...'

'...sais a correr, apanhas a cenoura, entregas-me a cenoura, eu dou-te outra cenoura para apanhares, e assim vais atingindo metas e vais subindo. G14, G13, é super fixe.'

Apanhas a cenoura, entregas a cenoura... estás a subir. Oito anos depois encontras o mesmo chefe na cafetaria da empresa e dizes: 'Pá, tenho só uma curiosidade: onde é que metes tanta cenoura, homem? É impressionante!'

Vais subindo, subindo, subindo, e de repente começas a ser chamado por siglas. Siglas em inglês, e tudo o que é em inglês vale muito. És CFO, CEO, C-cocó, I-cocó, C-fió...

...e aí começas a perceber que há sempre alguém acima, há sempre alguém a humilhar-te, há sempre alguém a olhar-te de alto a baixo. E um dia fazem-te uma festa.

Ouve-me: no estádio Allianz Parque, no dia em que te fizerem uma festa, já foste.

Vão dar-te uma placa a dizer: 'Obrigado, perseguidor de cenouras.' Mas tu, agora envelhecido, serás substituído por alguém mais jovem e mais iludido.

Alguém te dirá ainda: 'Quando te reformares vai ser excelente.' Pegas no dinheirinho que sobrou, compras uma quintinha, até tens um lago e vais pescar.

Aos 80 anos estás nas últimas, com a família a chorar à volta, e ainda vai chegar alguém, podes crer, vai chegar alguém a dizer: 'Nada de tristezas, nada de tristezas, porque o melhor ainda está para vir.'

Tu, fragilizado, sem forças, dizes: 'Pá, enganaram-me durante 80 anos!' E não percebeste que talvez, se a vida tinha alguma hipótese de ser feliz, não é quando nada acontecer...

...mas é já! Aqui! Neste canto do estádio, ou a felicidade está aqui ou não estará em mais lado nenhum, porque a vida está aqui.

E depois, claro, tu pensas que eu podia ter ficado à espera da minha hora de entrar, podia estar ali sentadinho e pensar assim: 'Opá, mais uma palestra...'

'...depois de me ter reformado na universidade este é o meu ganha-pão, todos os dias há uma, felizmente a família agradece. Portanto, deixa-me ir lá despachar isto, cumprir calendário, que depois do almoço há mais.'

E aí a felicidade seria quando isto aqui acabasse, quando eu fosse embora para poder descansar, para poder comer. E tu dizes: 'Epá, mas que pensamento tão simplório, tão pobre, tão infeliz...'

'...esse de ficar ali à espera que a palestra acabe para eu poder então ser feliz. Que coisa tão medíocre.' Pois é, mas tu chamas 'happy hour' a que horas?

Chamas 'happy hour' à segunda-feira às 8 da manhã ou à sexta às 18h? Para ti, 'happy hour' é a hora em que o trabalho acaba. Porque é que eu não tenho esse direito?

Estou aqui a trabalhar, quando a palestra acabar é que vai ser fixe, por enquanto é uma portagem que tenho de pagar pela felicidade quando tudo acabar. E tu pensas: 'Há qualquer coisa errada nesta história.' Claro que há.

Eu podia estar ali sentado e podia estar a pensar assim: 'Nunca estive aqui. Uma palestra neste lugar, nunca mais. Nunca mais, nem que voltemos todos...'

'...seremos diferentes.' Cada instante da vida é uma oportunidade mágica, irrecuperável e virginal, absolutamente inédita e nunca antes vivida.

É este momento que eu tenho para fazer neste lugar o melhor que eu puder. Tenho a oportunidade de fazer aqui melhor do que ontem...

...e melhor do que os 30 anos de lecionação que foram a minha vida. Porquê? Porque hoje sou melhor do que ontem, porque hoje sou mais competente do que ontem...

...hoje estou mais preparado e sou mais experiente do que ontem. Tenho a oportunidade de fazer o melhor da vida, e ali estava eu sentadinho, focado em fazer aqui o melhor da vida...

...a palestra da vida, o melhor que já fiz, para que possa ter graça não quando terminar, mas durante. E quando a felicidade começa antes, é melhor para a vida.

Se for preciso esperar pela sexta-feira às 18h para a vida ser feliz, desculpa, mas a tua vida é muito má. É bem melhor quando ela começa antes, e ela terá cor de cada vez que...

...usares o instante vivido para procurares fazer o mais perfeito, a busca da excelência, o pleno desabrochar da própria essência, a busca da própria perfeição...

...que não vai acontecer no fim de semana, mas vai acontecer já, porque é agora que a vida acontece. E eu tenho a oportunidade mágica...

...de usar as melhores palavras, os melhores exemplos, tocar-te no espírito com a máxima contundência. E aí sim, estarei a fazer da minha vida...

...uma vida de desafios, colorida e feliz. Não é quando acabar, é já. E lamentarei imenso o momento em que acabar.

Porque se me perguntares, e aqui já não é ninguém famoso, aqui sou eu: a felicidade é um pequeno segundo da vida, um pequeno instante...

...que tu gostarias de repetir. A felicidade é aquele segundinho que tu não gostarias que acabasse...

...mas como terá de acabar, usas a inteligência para o repetir. Pode acontecer em qualquer lugar. Pode acontecer no cinema, vais ver O Segredo dos Seus Olhos...

...com o Darín, e pensas: 'Pá, acho que vou voltar aqui com a minha mãe para ela ver este filme.' Isso é sintoma de felicidade no cinema.

Estás no bar, na Rua Pitangueiras, com alguém que não conheces. Esse alguém tem de ir embora e dizes: 'Epá, deixa o teu telefone, que vou ligar para marcarmos outra vez.' Isso é felicidade no bar.

E há até aquele aluno, aquele aluno que no último dia de aulas do curso se vira para ti e diz: 'Professor, será que no ano que vem...'

'...não poderia assistir às suas aulas outra vez como ouvinte?' E aí tu olhas para o aluno e ves que só há uma razão para ele querer fazer o mesmo curso outra vez...

...ele terá de admitir: é que durante as aulas foi feliz. E oxalá, oxalá tenha sido assim aqui.

Oxalá nem tenhas sentido a minha chegada, oxalá te tenhas deixado conduzir pela minha fala, pensado na tua própria vida e lamentado que chegou a hora de eu me despedir.

Oxalá penses que talvez se tivesses trazido a tua mãe, se tivesses sido meu aluno, se me tivesses visto na internet, se me tivesses procurado antes, talvez tivesses antecipado este encontro.

E se alguma destas coisas aconteceu, admite: neste segundo, aqui, não depois, agora, foste feliz.

Quando a vida poderia ter durado um pouco mais, quando a vida se poderia repetir um dia. Oxalá tenha sido assim. E depois, claro, se foi assim...

...a meta que vim tentar atingir foi atingida e alcançada, porque não há nada mais fixe do que num lugar como este proporcionares a alguém que nunca viste...

...um mísero segundo que esse alguém gostaria de repetir contigo. E se todos nós, para além das nossas metas do dia a dia, nos déssemos ao trabalho de proporcionar a alguém ao lado...

...um instante de vida que esse alguém gostaria um dia de repetir, opá, estaríamos juntos a construir uma sociedade infinitamente mais solidária, uma sociedade infinitamente mais justa, mais coesa...

...mais harmoniosa e mais feliz. Porque, no fim de contas, isto aqui a que chamamos Brasil somos nós, e se temos de melhorar somos nós a melhorar...

...e se há algo a progredir somos nós que temos de fazer acontecer. Somos todos corresponsáveis, é hora de juntos virarmos a página e patrocinarmos com a nossa conduta...

...e a nossa inteligência uma convivência melhor e mais justa. Que não seja para nós, mas que seja para aqueles que tanto amamos e que não pediram para nascer...

...e que esperam encontrar, quando começarem a viver, um lugar fixe de convivência. Porque viver bem é conviver bem, viver bem é viver bem com os outros, viver bem é encontrar justiça para si e para os outros.

E isso é tarefa nossa. Não haverá super-heróis, não haverá soluções milagrosas, não haverá grandes génios a salvar-nos. Esta tarefa é exclusivamente nossa...

...de procurar a felicidade através de uma convivência feliz. Oxalá, pelo menos por um segundo, tenhas sido feliz como eu fui ao longo destes minutos aqui contigo. Muito obrigado e até à próxima, se Deus quiser.