editorial noturno

Como a IA vai mudar tudo (inclusive você) | Miguel Fernandes | TEDxSaoPaulo

Descrição

Miguel Fernandes fala sobre os caminhos reais da Inteligência Artificial. Ele explica de forma acessível como a IA está impactando a educação, os negócios e o nosso dia a dia. Miguel nos convida a olhar para o futuro com menos medo e mais preparo. Fundador da Witseed e Inventos Digitais, possui 20 anos de experiência no setor. É conselheiro e investidor de startups de IA nos EUA, Índia, Portugal e Israel. Atualmente, coordena os cursos de IA para negócios no Brasil pela Exame como Chief Artificial Intelligence Officer da Exame. This talk was given at a TEDx event using the TED conference format but independently organized by a local community. Learn more at https://www.ted.com/tedx

Transcrição completa

É irónico eu começar uma fala sobre inteligência artificial citando o Ailton Krenak, que é um dos críticos mais ferrenhos que eu conheço à nossa sociedade tecnológica.

Para ele, o computador é uma máquina demoníaca. E eu gosto muito de ler os livros dele porque ele me faz exercitar o pensamento crítico,

que é uma das principais habilidades que a gente vai precisar de desenvolver nesta era da inteligência artificial.

Neste livro que li dele, o último livro que li dele, chamado "O Futuro É Ancestral", ele faz um ensaio sobre o rio.

O rio, para os povos da floresta, é fonte de vida. As terras ao redor do rio são férteis. O rio tem peixes suculentos que alimentam a população.

Mas, ao mesmo tempo, o rio é fonte de perigos. Se entrares desavisadamente no rio, podes ser levado pela correnteza ou podes ser mordido por um crocodilo.

E o sucesso, a felicidade daquela população que vive nas margens daquele rio tem a ver com a capacidade de estar adequada àquele ambiente, de estar sincronizada, conectada com o ecossistema.

E este é um dos papéis do pajé, do Ailton: alertar as pessoas em relação aos perigos, alertar em relação à necessidade de preservar aquele rio e em relação aos benefícios daquele rio.

E quando li isto, fiquei a pensar sobre a nossa vida. É por isso que conto esta história. Nós não somos povos da floresta que vivem à beira de um rio de água.

Nós vivemos à beira de um rio de bits e bytes, à frente de muitas telas, à frente dos computadores. E a inteligência artificial é esse novo rio.

Nós estamos neste momento diante de um mar desconhecido, portanto que causa muito medo a muita gente, mas que precisa de ser desbravado para que a nossa espécie humana consiga sobreviver.

A inteligência artificial é fundamental para a nossa sobrevivência e, ao mesmo tempo, é um risco para a nossa sobrevivência. E nós temos de aprender a conviver com ela da melhor forma possível.

Em 97, o Gilberto Gil fez uma música que me marca até hoje e ele convidava quem ouvia a pegar na sua jangada e navegar na infomaré, navegar na internet.

E é essa analogia que vejo hoje para a inteligência artificial: é um novo rio que precisamos de aprender a navegar, para que se preserve e traga benefícios para a humanidade e não os malefícios e perigos que pode trazer.

Há 20 anos que me preocupo em fazer as máquinas ficarem inteligentes. Trabalho com inteligência artificial há 20 anos.

E, há mais ou menos 6 anos, deparei-me com a dificílima tarefa de desenvolver a inteligência no ser humano. O meu filho nasceu e eu precisei de lhe ensinar a viver neste mundo complexo em que vivemos hoje.

E fui estudar educação, fui dar aulas no ensino básico, fui dar aulas no ensino secundário. Recentemente estava a dar uma palestra para alunos do ensino secundário e um deles levantou a mão, esses do fundo, sabem?

Ele levantou a mão e disse: "Não, Miguel, agora com a inteligência artificial, se a professora pedir para fazer um trabalho, posso ir à inteligência artificial, ela faz por mim e entrego à professora".

Espertinho. Eu disse-lhe: "É verdade, podes usar a inteligência artificial para fazer isso, mas também poderias usar a inteligência artificial para..."

Imagina que, por exemplo, a tua professora de História pediu para fazeres uma composição sobre a Revolução Francesa. Porque é que ela te pediu para fazeres uma composição sobre a Revolução Francesa?

Para aprenderes sobre a Revolução Francesa, refletires sobre ela e entenderes qual é o impacto daquele facto histórico que aconteceu há séculos na tua vida hoje, que é um impacto enorme.

A tua vida seria completamente diferente se aquele evento histórico não acontecesse. E podes, de facto, pedir à inteligência artificial para escrever um texto, copiar e dar ao teu professor,

ou podes, por exemplo, pedir à inteligência artificial para encarnar o Napoleão Bonaparte e conversar com o Napoleão Bonaparte sobre como ele se sentiu durante a Revolução Francesa,

o que é que ele estava a pensar no 18 de Brumário. Podes conversar com a Cleópatra, com o D. Pedro, podes conversar com qualquer personagem histórica.

E aí fazes a tua composição contando como foi entrevistar o Napoleão Bonaparte. Quem terá aprendido mais? Quem vai tirar melhor nota?

Quem vai ganhar mais dinheiro ou ter melhores salários quando for para o mercado de trabalho? É aquele aluno, aquela pessoa que manteve viva a curiosidade e, de novo, o pensamento crítico.

Que continues a usar a inteligência artificial para refletir sobre o que acontece à tua volta e sobre o que o teu professor quer que aprendas.

Há um estudo do MIT em que o professor dividiu a turma em dois grupos. Um dos grupos precisava de resolver um exercício usando inteligência artificial. O outro grupo precisava de resolver o mesmo exercício sem usar inteligência artificial.

Qual foi o resultado? O grupo que usou inteligência artificial resolveu muito rápido, muito mais rápido. O grupo que não usou inteligência artificial demorou mais tempo, mas resolveu também, chegou a um resultado parecido.

Conclusão: a inteligência artificial é muito melhor porque resolves problemas muito mais rápido com ela. Muito bem.

Passou uma semana e esse mesmo professor foi perguntar aos alunos sobre aquele exercício que fizeram na semana anterior. E os alunos que usaram inteligência artificial não se lembravam do exercício,

não se lembravam da solução, do problema, do que fizeram. E quem não usou inteligência artificial lembrava-se com minúcias de detalhes da angústia de não ter a resposta pronta,

do processo de encontrar a resposta, dos erros que cometeram. Ou seja, eles aprenderam. A inteligência artificial está ao serviço da eficiência, mas nem tudo na nossa vida é para ser eficiente.

O processo de aprendizagem é uma ineficiência do nosso cérebro a tentar assimilar um conhecimento que não sabemos muito bem como vamos assimilar. Precisamos de errar para aprender.

E muitas vezes a inteligência artificial, por ser esta tecnologia tão sedutora, pode limitar a nossa capacidade de aprender porque nos vai dar uma resposta pronta

e não vai deixar que a gente se angustie e debruce sobre aquele problema que queremos resolver. Fui fazer um texto recentemente para a minha coluna, um artigo que estava a escrever,

onde queria fazer um paralelo entre as leis de Newton e o mundo corporativo. E pedi à inteligência artificial: "Faz um texto fazendo um paralelo entre as leis de Newton e o mundo corporativo".

Aí a inteligência artificial começou: Primeira lei de Newton... Segunda lei de Newton... Terceira... Quarta... Quinta... Sexta... Eu comecei: "Há alguma coisa errada, não é?".

Pedi-lhe para parar, disse-lhe: "Olha, há alguma coisa errada, porque não há tantas leis de Newton". Ela, como sempre muito educada: "Ah, é verdade, peço desculpa pelo equívoco" e fez corretamente.

Se eu tivesse feito o que muita gente tem feito, que é um erro enorme, simplesmente pegar no que ela me deu e publicar, estaria a usar a inteligência artificial para ser um grande burro,

dizendo que Newton tem seis, sete, oito leis. E este é mais um exemplo da importância do pensamento crítico quando usas a inteligência artificial.

A inteligência artificial é treinada, é desenvolvida para produzir textos muito convincentes e muito sedutores que nós, humanos, adoramos ler.

A mesma coisa vale para a imagem. Tudo o que vês num ecrã hoje pode ter sido gerado por inteligência artificial. Tudo! Qualquer vídeo, qualquer imagem, qualquer pessoa a gesticular.

A inteligência artificial é esta tecnologia capaz de imitar o ser humano num ecrã, de forma a que nós, humanos, não consigamos mais perceber a diferença.

Portanto, é muito importante exercitares o pensamento crítico quando usas a inteligência artificial. O viés não está só na inteligência artificial, está em quem a usa também.

Uma professora de Português contou-me esta história que achei incrível. O aluno chegou ao pé dela... Até hoje este livro está no programa, quando estava no ensino secundário li um livro do Machado de Assis chamado "Dom Casmurro",

onde há uma potencial traição de Capitu em relação a Bentinho. E o aluno chegou todo feliz à professora a dizer: "Professora, professora, eu descobri que a Capitu traiu o Bentinho! Pesquisei na internet e ninguém sabia, mas eu descobri que ela traiu!".

A professora: "Não, como assim descobriste?". Espertinho, não é? "Pedi à inteligência artificial para se comportar como a Capitu e conversei com ela, e ela confessou-me! Ela confessou que traiu o Bentinho!". A professora ficou desconfiada: "Deixa-me ver os teus prompts, os teus comandos".

E quando ela foi ver os comandos, percebeu que o rapaz induziu a inteligência artificial a dar a resposta que era a interpretação dele sobre a história.

E quando ele chega e fecha a história, tira a maior beleza que é o livro, que é não saberes se a Capitu traiu o Bentinho. Podes ler isto com 15 anos e ter uma interpretação, podes ler com 30 e ter outra interpretação.

Este não é um problema que precisamos de resolver, e muito menos de inteligência artificial para resolver. Perdes a oportunidade de deixar a tua imaginação decidir, afinal de contas, o que é que aconteceu.

Um dos maiores aprendizados que o meu filho me deu foi o de contemplar a vida, foi o de contemplar a natureza. Eu sempre fui muito 'nerd', videojogos, computador, ecrãs, e ele gosta muito de ver o pôr do sol.

E o pôr do sol põe-se num horário em que preciso de estar a escrever os meus textos, a resumir as notícias de inteligência artificial para publicar.

E o Joaquim nesse dia, Joaquim é o nome do meu filho, virou-se para mim e disse: "Papá, o sol está a ir dormir e temos de dar tchau ao sol", preocupadíssimo. Eu disse: "Não, calma, Joaquim, preciso de fazer uma coisa". "Não, mas o sol vai dormir...". Espera aí. Fui ao computador e configurei um 'bot' com inteligência artificial para ir ler por mim todas as notícias nos sites que costumo ler e fazer um resumo dessas notícias.

Ficou lá a inteligência artificial a trabalhar para mim, eu saí, vimos o pôr do sol, e quando voltei, a inteligência artificial estava a terminar de resumir a última notícia.

Quando cheguei e olhei para aquilo, organizei o texto, aprofundei-me no que me queria aprofundar, fiz o meu texto e depois fiquei a refletir sobre isso. É a primeira vez que uma tecnologia me dá tempo de exercer a minha humanidade.

Não faz o menor sentido desenvolver uma inteligência artificial que vai contemplar o sol ou que vai sentir amor por uma criança ou pelo seu filho.

Eu sempre vivi numa correria muito grande, de ter de entregar os trabalhos, de ter de fazer as coisas e não ter tempo para nada, mas agora encontro na inteligência artificial a possibilidade de exercer a minha humanidade na minha plenitude,

porque, enquanto estou a ver o pôr do sol, sei que há uma máquina a fazer uma parte do trabalho que para mim é enfadonho, eu odeio resumir textos de notícias, acho isso muito chato.

Mas a inteligência artificial pode fazer por mim. Muita gente tem medo da inteligência artificial, muita gente é ingénua em relação à inteligência artificial.

E resgatando o que falei lá no início, não adianta teres uma visão de medo e portanto não usar, ou ingénua e usar de qualquer maneira. Precisas de usar a inteligência artificial sob uma perspetiva de como é que ela vai melhorar a tua vida.

E ela melhora a minha vida, pode melhorar a tua vida dependendo da forma como encarares a inteligência artificial. Ela é artificial, foi criada por seres humanos e é uma tecnologia que vai finalmente nos ajudar, dependendo da nossa perspetiva sobre ela, a sermos mais humanos. Obrigado.