Documental brutalista e histórico, evocando terra, sangue e resistência.

Falei com um dos Sobreviventes da Batalha do Cuito Cuanavale - Cubango

Descrição

🎖️ Falei com um dos Sobreviventes da Batalha do Cuito Cuanavale – Cubango 🇦🇴 Este é um dos vídeos mais impactantes que vais ver hoje! Conhece José Maria, um antigo combatente que sobreviveu à histórica Batalha do Cuito Cuanavale, travada no Cuando Cubango, Angola. Neste documentário exclusivo, mergulhamos numa das batalhas mais marcantes da história africana e mundial, que influenciou diretamente os rumos da independência da Namíbia e a queda do regime do Apartheid na África do Sul. 👉 Um testemunho real, emocionante e carregado de memórias que poucos tiveram coragem de contar. 📌 O que vais ver neste vídeo: Relato de um sobrevivente da Batalha do Cuito Cuanavale Histórias de guerra nunca antes reveladas O impacto do conflito no povo angolano Reflexões sobre sacrifício, coragem e história de Angola 🔔 Subscreve o canal e acompanha mais histórias inéditas sobre Angola, África e o mundo. #Angola #CuitoCuanavale #Cubango #HistóriaDeAngola #Documentário

Transcrição completa

Foi-me recuperar a minha mina. Ah... Isso foi em que ano?

Eu fui... tanto da 8.ª Brigada...

A princípio é que eu fui fundador da Escola Pré-Academia Militar,

em 78. Na altura, o Ministro da Defesa era o Iko Carreira.

Então nós, da Escola Pré-Academia,

depois de atingir os 18 anos,

uns foram para tanquistas, outros foram para pilotos.

Infelizmente, eu tinha um amigo que treinava karaté,

então fomos expulsos da escola,

para o Centro Comandante Joaquim Capango, na altura no Coporolo.

Eu, como não queria deixar o meu amigo, então infiltrei-me naquele grupo e fomos.

Mas devido aos treinos de karaté que a gente praticava,

a escola, que é o Centro de Instrução Comandante Joaquim Capango,

acolheu-nos como instrutores, depois do curso militar, ficámos lá como instrutores militares.

Então, pelas qualidades que eu possuía... / Isto em que ano? Em que ano?

Isto foi em 83,

1983.

Sim, então na escola fiquei. Pelas qualidades que eu possuía, a escola depois sai do Coporolo,

que é comuna de Benguela.

Coporolo é uma comuna que pertence ao município de Chongoroi.

Então o Centro de Instrução ficava no rio Coporolo.

Eles até confundiram que aquilo era uma base da SWAPO.

Sim, então é assim que a escola depois muda do Coporolo para o Waku Cungo,

no Agrupamento 11.

Havia a área 4, onde estava o regimento cubano. Nós estávamos no 11.

Então, no 11, lá no Waku Cungo, onde o centro de instrução estava,

quando a UNITA invade a cidade do Sumbe,

e levaram muitos médicos cubanos,

então a escola sai do Waku Cungo para o Sumbe, na Gimba, depois da escola dos petróleos.

Ficámos localizados numa área chamada Gimba,

aquilo era quase uma fazenda de galinheiro.

Naquela altura, em 84, é isto, fui encaminhado para o centro de instrução

em Luanda, na Funda, na Escola Comandante Arguelles,

onde faço o curso de oficiais. Saio com a patente de subtenente.

Depois disso, colocaram-me na Lunda Norte, nas operações especiais,

onde havia um branco chamado Matubeia, que treinava os comandos especiais,

que era da proteção dos objetivos diamantíferos.

Lá não tivemos lugar, voltámos a Luanda. De Luanda, encaminham-me para o Cuito Cuanavale,

que é na terra do fim do mundo.

Aí é onde eu fui colocado... / Naquela altura o Cuito Cuanavale era considerado terra do fim do mundo? / Terra do fim do mundo,

que há entrada, não há saída. Papa Kapa,

Kapa Kapa, sim. Onde até as árvores estão mutiladas.

É isso. Então aí fui colocado na 8.ª Brigada de Infantaria Motorizada,

como chefe da 5.ª Companhia do 2.º Batalhão.

O comandante era o comandante Pinto.

Nós escoltávamos as colunas de comida de Menongue para o Cuito Cuanavale,

aproximadamente 200 km. Tínhamos de caminhar

200 km em quase 10 dias, não é?

Os carros na estrada,

com os sapadores à frente a caçar as minas, e nós da infantaria a fazer o pente para proteger a coluna.

Então,

em 87,

nós estávamos a escoltar uma caravana que levava técnica OSA-K.

Essa técnica é uma técnica que Angola comprou na União Soviética,

que abatia a aviação sul-africana a 60 km.

A 60 km o avião já está no alvo. Essa técnica, a minha brigada é que transportou de Menongue

para o Cuito Cuanavale.

Naquela altura, a UNITA tinha dois batalhões famosos: o Batalhão 04...

Eram batalhões da melhor tropa da UNITA.

O Savimbi tinha jurado que aquela OSA-K não deveria entrar no Cuito Cuanavale.

Então o que é que o nosso Governo fez? Mascararam a coluna,

os carros da OSA-K meteram à retaguarda da coluna,

e no meio meteram uma carcaça para confundir que a OSA-K estivesse no meio da coluna.

e fomos atacados.

Queimaram 25 viaturas,

mas a OSA-K nenhuma queimou. O meu chefe de batalhão foi atingido, o estado-maior subiu a chefe de batalhão e eu fiquei como estado-maior.

Então o que me fez acionar

foi o meu radista. Quem acionou foi o radista.

Assim que o radista aciona, eu falo com o chefe do primeiro pelotão para ir socorrer.

Ele diz: "Ó chefe, estamos num campo de minas.

Mais vale um cobarde vivo do que um herói morto."

Eu, armado em esperto como chefe de companhia, quis dar o exemplo...

Então comecei a ir para socorrer o radista.

Quando faltavam uns 5 metros

do sítio onde o radista acionou a mina,

eu só senti uma grande explosão.

Naquele momento fez-se uma nuvem escura.

Os outros que estavam

a uns 50 metros de mim,

viram uma bota no ar. Era o meu pé do lado esquerdo.

Nem tive tempo de olhar para dizer adeus ao meu pé.

Quando aquela escuridão passou, ficou claro,

assim que eu olhei no chão, faltava só um buraco.

A minha perna, o osso estava tão branco como se fosse a brancura de uma mandioca descascada.

De repente comecei a sangrar.

Então gritei: "Sanitário! Acionei!

"Estás onde? Ó chefe, estou aqui!""

Então eu disse-lhe: "Se estás a vir ao meu encontro, localiza as minhas pegadas.

"Estamos num campo de minas. Senão também vais acionar."

Aqueles meus soldados a quem eu dava o cigarro,

a quem eu comprava o 'mochila' que a gente sobrevivia com ele, todos vieram a escorraçar o sanitário:

"Vai socorrer o chefe, senão morre!"

Isso forçou o sanitário a vir ao meu encontro.

Ele viu as minhas pegadas

até que chegou a mim. Quando o sanitário chegou ao meu lado,

ele ficou a cambalear

com aqueles ferimentos, aquele sangue, porque eu escapei a ficar amputado das duas pernas. Estás a ver a outra como ficou?

Os estilhaços amputaram esta, mas também machucaram esta perna.

Então logo,

a medida... / Podes aproximares-te mais para mostrar. / Aqui é a amputação. 75%.

Podemos tirar a prótese?

Então é assim: o sanitário ficou a cambalear, eu é que tive de lhe tirar o...

Eu é que tive de lhe tirar... Já estás a ver, a amputação a 75%.

Eu é que tive de lhe tirar as ligaduras. À medida que a gente foi isolando,

a ligadura branca virava da cor de polpa de tomate.

Assim fui isolando o coto, isolámo-lo aqui. Ele meteu-me... / Não foi o sanitário que isolou, foi o pai que isolou?

Eu fui isolando e depois ele recuperou, ganhou coragem.

Isolou também a perna do lado esquerdo e pôs-me às costas.

E eu fui dizendo: "Olha, pisa aqui, pisa aqui", até que saímos de dentro do campo de minas.

Então logo os carros do comando

começaram a vir ao meu encontro, o BRDM, para me socorrer. "Epá, o comandante da 5.ª Companhia acionou!"

Eu era um ferido grave. Graças à ração dos meus soldados,

aquelas latas onde tinham o sumo de maçã,

o sanitário pegou no capacete, recolheu as latas de sumo de maçã, despejou no capacete, meteu areia, e finalmente fabricou um soro.

Então esse líquido é que fui bebendo.

Durante a noite, outros foram morrendo. Eu estava em cima de um colega meu, estava a dar-lhe cotoveladas: "Fica bem, fica bem!"

Quando deu de manhã, afinal o outro já estava morto, só estava a dar cotoveladas a um que morreu.

Mas logo, a 45 km da cidade do Cuito Cuanavale,

lá no posto de comando, enviaram os homens para vir socorrer os feridos.

Então os carros que vieram do Cuito vieram ao nosso encontro,

e a minha maca foi a primeira. Já sabes, nós temos primazia como chefes.

E assim fomos socorridos até ao hospital de campanha no Cuito Cuanavale.

Então quando eu cheguei ao Cuito Cuanavale, eu não vi nada, já estava a falecer,

o coração já estava a bater fraco. Mas o Dr. Pires, aquele doutor angolano,

mandou pôr logo dois soros e mandou pôr o soro a correr.

À medida que o soro foi correndo, o coração começou a bombear.

Então quando abri os olhos, o doutor disse: "Epá, salvámos mais um!" Eu disse: "Sim, doutor, eu quero viver." Ele disse: "Vais viver!"

E assim fui socorrido com o soro. Mas debaixo de bombardeamento fomos evacuados de helicóptero para a cidade de Menongue.

O doutor angolano disse que eu tinha de ser transferido para Luanda, porque eles pensavam que o pé direito também estava fraturado.

Mas o soviético disse: "Não, Luanda não é normal. Menongue é normal, por causa do clima."

Os soviéticos gostam de clima fresco. Se eu fosse para Luanda com o calor,

devido ao calor as feridas iriam ganhar infeção.

Porque Menongue faz frio. Tu metes água num prato,

no mês de junho, a água pode congelar. Então aquele frio afinal fez bem.

Foi assim que fui mesmo tratado dentro do hospital de Menongue.

Mas tu vias os gritos dos outros, cada um grita do seu modo. Aquele "Ai, ai!", o outro "Ei, ei!" Aquilo dói, a amputação.

Mas o grande sofrimento é na hora dos curativos.

Quando aquele carro, o sanitário, vem a empurrar, o teu coração já está a bater.

Porque ele tem de espetar uma seringa com água oxigenada para lavar o pus lá dentro.

Então os outros que faziam mania começam a dar bafo e pedem para deixar assim. Resultado: aquilo começa a criar gangrena,

vês mesmo minhocas a sair no coto do outro. Então são obrigados a amputar esse.

Mas graças a Deus eu fui corajoso, aguentei os curativos.

E quando a dor era demais, eles aplicavam uma pica que aliviava a dor.

Só agora é que me dou conta que aquela pica afinal era de dipirona.

Só que lá o doutor dizia: "Aplica analgina, está a gritar muito." Quando aplicavam aquela pica, a dor cessava.

Mas quando o efeito da pica passa, a dor vem de novo. Pronto, aguentei lá os três meses e fiquei curado,

graças a Deus. Então fui encaminhado para o Centro de Reabilitação Física da Bomba Alta, no Huambo.

Na altura, no partido único, aquilo estava organizado.

Havia o posto sanitário que estava dentro da estação do caminho-de-ferro, onde havia uma enfermaria,

onde a gente era tratada. Tínhamos direito à comida do Governo, a ambulância levava-nos para o Centro de Reabilitação Física na Bomba Alta,

onde tiraram as medidas, onde consegui a minha primeira prótese.

Aquele tempo eu tinha ainda os meus 26 anos, ainda estava jovem, estava fresco.

Aquele orgulho de andar com a prótese, pá... superei.

Então, depois da reabilitação volto a Menongue. Em Menongue peço os meus documentos,

então vim para Luanda. Luanda onde me coloquei na Secretaria dos Antigos Combatentes.

Só que fiz dois anos sem vencer.

Mas depois, como eu era já oficial, porque quando fui amputado, devido ao meu mérito,

a OSA-K chegou bem dentro do Cuito Cuanavale. A partir daí a aviação sul-africana deixou de nos ameaçar.

Todo o avião sul-africano que vinha bombear era batido. Foi assim que começaram a utilizar aviões teleguiados, sem piloto.

Mas eu considero-me um herói, porque nós é que metemos a técnica OSA-K dentro do Cuito Cuanavale, chegou com sucesso.

A minha patente encontrou-me já no hospital. Eu acionei com a patente de subtenente,

então subi para tenente. Só que atualmente deviam dar-me o grau de major para ir para a casa social,

só me deram o grau de capitão. Pá, mais vale um do que dois a voar.

Então enquadrei-me na Secretaria dos Antigos Combatentes. Dois anos depois comecei a ir

lá no Ministério da Defesa, na Direção Principal de Quadros.

Afinal esses dois anos que fiz tinha direito ao meu salário.

Foi assim que fui viver na casa da tia Mena, na Samba. Mas o meu orgulho era ter a minha casa.

E prontos, juntei-me com a tua tia Laureta, fui buscá-la a Benguela.

Comecei a tratar dos documentos lá nas finanças até que ganhei a causa.

O primeiro salário foi de dois anos, aquele saco preto, meu filho,

de dinheiro... comecei a tremer. Pá, quando comprei aquela montanha por 300 dólares,

na altura diziam que eu era maluco, "Como é que vou comprar na montanha sem terreno?"

O pai lembra-se da vez em que estavam para ser fusilados? / Então, quando entram as escaramuças de 92,

nós estávamos aí entre a Unicarga e a estação do caminho-de-ferro.

Infelizmente, na montanha onde a gente tinha a nossa casa, tinha uma vala que sobe que vai ter mesmo à casa do Savimbi.

Naquelas escaramuças nós estávamos entre dois fogos:

a UNITA atirava contra a estação, os antimotim que estavam na estação atiravam contra a UNITA que está lá em cima.

Muito povo do bairro retirou-se, mas eu como era militar já sabia a estratégia, mantive as minhas crianças, mulher, todos aplacados.

A vizinha que estava ao lado apanhou um tiro na nádega.

O vizinho que estava a beber o vinho dele, que era um cabo-verdiano, apanhou uma rajada com as tripas para fora.

Então ele dizia: "Mãe, estou a morrer!" / Naquela casa de madeira? / De chapa, sim.

Então eu disse: "Epá, tá-se em guerra, todos ficam aplacados! A mãe é que estava a armar truque, a bala furou o teto e começou a girar no corpo dela,

fui ver, só assim é que ela ficou quieta. Graças a Deus aí com a minha família sobrevivi debaixo do fogo. Eu tive de fazer

exercício a cozinhar no fogão Prima para lhes dar de comer, caiu um obús na casa do avô Mariano, onde morreu a falecida Nazaré

e o falecido Vítor. / Morreu com o filho? / Com o filho, sim.

Então é assim que quando

o Marcolino Moco na altura era o ministro... não, era sim, ministro... não sei se de quê.

Começaram a apelar para não se fazer justiça por mãos próprias,

porque estava a perseguir-se o povo umbundu.

Então aí no bairro alguém nos bufou.

Lá no Miramar onde tinham a UNITA, aqui no bairro havia aquela família da tia Filomena, reconheceram lá alguns conterrâneos

da UNITA, do Bié, e conotaram-nos como sendo um povo da UNITA.

O que é que acontece? Debaixo daquele fogo, quando aquilo cessa, os antimotim assim que começam a fazer pente no bairro para ver se tem elementos da UNITA,

tiraram-nos a todos para fora e puseram-nos no tanque para sermos fusilados.

Porque outros estavam a ser mortos no campo da Cerâmica, nós levaram-nos até aí no chafariz. Só o que me safa é o meu passe.

Eu saquei do passe: "A UNITA já me tirou a perna, agora vocês que são do MPLA para quem fui combater também querem tirar-me a vida? Eu sou vosso colega, tenho aqui o passe."

Eles viram: "Oh, segundo-tenente! Não, majó, tira a tua família." É assim que a gente foi salva.

Aqueles vizinhos que nos deram o nome de que estes são da UNITA ficaram todos envergonhados. / Eu comecei a chorar bbué.

E o teu pai estava a chorar.

Graças a Deus o passe militar me salvou.

Eu perdi a perna na guerra a combater contra a UNITA, a UNITA é que me tirou a perna. Agora vocês do MPLA...

Não faz sentido! Afinal estou de que lado? Tão de que lado?

Aquele passe com a patente de tenente é que nos salvou. Graças a Deus não fomos fusilados.

O facto de a gente estar na montanha e o caminho ir dar à casa do Savimbi não significa que eu seja da UNITA. Prontos, assim sobrevivi.

Sobrevivi. Graças a Deus ficámos estes anos todos até que o Governo veio demolir as casas na Boavista e eu ganhei as minhas três casas aqui nos Zangos.

E nunca sonhava naquele tempo se um dia haveria de ter carro. Agora na doença da tua avó, na Cujaia,

o que é que eu faço? Das três casas, os outros venderam a 6.000 dólares, outros a 12.000.

Eu esperei um bom bocado até que vendi a casa a 40.000 dólares.

Naquela altura, quando a pasta entrou com 400 notas de 100 dólares, aquilo foi um tremero de notas verdinhas na minha mesa.

Pronto, foi quando comprei o Vitz, comprei um turismo para a tia Mena e comprei uma moto nova para a tia Paula. Porque o pudim é bom quando se come com os outros.